Bate-Papo Com “Nego-Veio”

Abaixo está mais um texto de um irmão que respeito muito, o Fernando Sepe, aliás, um dos poucos ainda sérios que são conhecidos na mídia Umbandista.

À noite, quando a maioria das pessoas estão dormindo, diversas falanges espirituais se desdobram em trabalhos socorristas de assistência à humanidade encarnada. Devido ao sono, a queda natural do metabolismo e das ondas cerebrais, o corpo espiritual desprende-se naturalmente do corpo físico.

Aproveitando-se desse fato natural e inerente a todo ser humano muitos amigos espirituais trabalham nessa hora da noite retirando essas pessoas do seu corpo físico, dando um toque sensato a elas diretamente em espírito, ou, simplesmente, trabalhando as energias do assistido com mais liberdade a partir do plano espiritual da vida.

Um dia desses, durante um trabalho de assistência, estava conversando com um Preto Velho, que responde nas lidas de Umbanda, pelo nome de pai José da Guiné. Segue o diálogo:

— Pai José, esse trabalho de assistência na madrugada é enorme, não? O médium umbandista muitas vezes nem imagina o tamanho dele, não é mesmo?

— É sim fio. trabalho grande, toda noite. Mas são poucos que lembram da espiritualidade dia-dia e mantém sintonia elevada antes de dormir. Isso acaba por barrar as possibilidades de trabalho em conjunto conosco, você sabe disso. A maioria dos médiuns por aí pensam que o único dia de trabalhoespiritual é o dia de trabalho no terreiro. É uma pena.

— É verdade, as pessoas tendem a se preparar muito para o dia de trabalho no terreiro, mas esquecem dos outros dias.

_ Preparar? Muitas vezes eles nem se preparam fio. A maioria chega lá cheia de problemas e preocupações na cabeça. Dá um trabalhão danado acoplar na aura toda encardida de pensamentos e sentimentos estranhos deles. E nego num tá falando que preparação é tomar um banho de erva antes do trabalho, não…

— Ué, mas o banho de erva é importante, não é pai?

— É, claro que é. Mas num é tudo. Antes do banho de erva, seria melhor um banho de bom-humor, com folhas de tranqüilidade e flores de simplicidade, hehehe… Isso sim ajudaria. Num adianta colocar roupa branca, defumar, tomar banho, se o coração tá sujo, se a boca maldiz, se o rosto está sem alegria e o espírito apagado. Limpeza interna fio, antes de limpeza externa…

— Tá certo…

— Tá certo, mas você muitas vezes num faz isso né? Hehehe… Tudo bem, todo mundo tem lá seus dias ruins, o problema é quando isso se torna constante. Fio, a Umbanda é muito rica em rituais, em expressões exteriores de alegria e culto a divindade. Mas isso deve ser utilizado sempre como uma forma de exteriorizar o que de melhor trazemos dentro de nós. Não uma fuga do que carregamos aqui dentro. Volta seus olhos pra dentro e lá presta culto aos Orixás. Só depois disso, canta e dança…

— Quando estiver participando de um trabalho, esteja por inteiro, em corpo físico, coração e mente. Não faça das reuniões espirituais um encontro social. Antes de começar os trabalhos, medita, ora, entra em sintonia com o trabalho que já está acontecendo. Durante os cantos, busca a sintonia com os Orixás.
Nesse momento, você e Eles não estão separados pela ilusão da matéria. Tão juntos. Em espírito e verdade…

— Acompanha as batidas do atabaque e faz elas vibrarem em todo seu ser. Defuma seu corpo, mas defuma também sua alma, queimando naquela brasa seu ego, sua vaidade, seu individualismo, que lhe cega os sentidos.

— Trabalha, aprende, louva, cresce meu fio. Mas o mais importante: Leva isso pra fora do terreiro! Lá dentro, todo mundo é filho de pemba, todo mundo tá de branco, todo mundo ama os Orixás…

— Mas aqui fora, logo na primeira dificuldade, duvidam e esquecem dos ensinamentos lá recebidos. Aqui fora, num tem caridade, fraternidade, Orixá, espiritualidade. Mas a Lei de Umbanda não é pra ficar contida no terreiro. A Lei de Umbanda é pra estar presente em cada ato nosso. Em cada palavra, em cada expressão de nosso ser…

— Percebe fio? Você é médium o tempo todo, não só no dia de trabalho, mas todo dia. Você é médium até quando tá dormindo…hehehe
Pai José fez uma pausa e eu fiquei a pensar a respeito da responsabilidade do trabalho mediúnico. De quantos médiuns por aí nem tinham idéia do trabalho espiritual que as muitas correntes de Umbandadesenvolvem. De como, a vivência de terreiro, demandava uma mudança interior, uma postura diferente em relação à vida. Enquanto pensava a respeito, pai José disse:

— É por aí mesmo fio. A partir do momento que a pessoa internaliza os valores espirituais, um novo mundo, cheio de novas perspectivas surge. Novas idéias, novos ideais. Uma forma diferente de encarar a vida. Esse é o resultado do trabalho. A caridade não é mais uma obrigação, mas torna-se natural e inerente ao próprio ser, assim como a respiração. A sintonia acontece esteja onde ele estiver, carregando consigo a Lei da Sagrada Umbanda em seu coração…

— Lembre-se: Aruanda não é um lugar! Aruanda é um estado de espírito… Você a carrega para onde for. Isso é trabalho. Isso é sacerdócio. Isso é viver buscando a espiritualização…

— Por isso, meu fio, faz de cada trabalho espiritual que você participar um passo em direção a esse caminho. Um passo em direção a unidade com o Orixá. Cada reunião, um passo… Sempre!
Notas do médium: Pai José de Guiné é um espírito que há muito tempo eu conheço, trabalhador incansável nas lidas da cura espiritual. Apresenta-se como um negro, com cerca de 50 anos, sempre com seu chapéu de palha a cobrir-lhe a cabeça e seu olhar firme e determinado. Tem um jeito muito direto e reto de falar as coisas sempre nos alertando a respeito de posturas incompatíveis com o trabalhoespiritual. É um espírito muito bondoso com quem já aprendi muitas coisas.

Fica aí o toque dele, que muito me serviu, a respeito de levar o terreiro para o nosso dia-dia.

Texto de Fernando Sepe.

A Tristeza dos Orixás – Vale a Pena Reler

 

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Foi, não há muito tempo atrás, que essa história aconteceu. Contada aqui de uma forma romanceada, mas que trás em sua essência, uma verdadeira mensagem para os umbandistas…

Ela começa em uma noite escura e assustadora, daquelas de arrepiar os pelos do corpo. Realmente o Sol tinha escondido – se nesse dia, e a Lua, tímida, teimava em não iluminar com seus encantadores raios, brilhosos como fios de prata, a morada dos Orixás.

Nessa estranha noite, Ogum, o Orixá das “guerras”, saiu do alto ponto onde guarda todos os caminhos e dirigiu – se ao mar. Lá chegando, as sereias começaram a cantar e os seres aquáticos agitaram – se. Todos adoravam Ogum, ele era tão forte e corajoso.

Iemanjá que tem nele um filho querido, logo abriu um sorriso, aqueles de mãe “coruja” quando revê um filho que há tempos partiu de sua casa, mas nunca de sua eterna morada dentro do coração:

_ Ah Ogum, que saudade, já faz tanto tempo! Você podia vir visitar mais vezes sua mãe, não é mesmo? _ ralhou Iemanjá, com aquele tom típico de contrariedade.

_Desculpe, sabe, ando meio ocupado_ Respondeu um triste Ogum.

_Mas, o que aconteceu? Sinto que estás triste.

_É, vim até aqui para “desabafar” com você “mãeinha”. Estou cansado! Estou cansado de muitas coisas que os encarnados fazem em meu nome. Estou cansado com o que eles fazem com a “ espada da Lei” que julgam carregar. Estou cansado de tanta demanda. Estou muito mais cansado das “supostas” demandas, que apenas existem dentro do íntimo de cada um deles…Estou cansado…

Ogum retirou seu elmo, e por de trás de seu bonito capacete, um rosto belo e de traços fortes pôde ser visto. Ele chorava. Chorava uma dor que carregava há tempos. Chorava por ser tão mal compreendido pelos filhos de Umbanda.

Chorava por ninguém entender, que se ele era daquele jeito, protetor e austero, era porque em seu peito a chama da compaixão brilhava. E, se existe um Orixá leal, fiel e companheiro, esse Orixá é Ogum. Ele daria a própria Vida, por cada pessoa da humanidade, não apenas pelos filhos de fé. Não! Ogum amava a humanidade, amava a Vida.

Mas infelizmente suas atribuições não eram realmente entendidas. As pessoas não viam em sua espada, a força que corta as trevas do ego, e logo a transformavam em um instrumento de guerra. Não vinham nele a potência e a força de vencer os abismos profundos, que criam verdadeiros vales de trevas na alma de todos. Não vinham em sua lança, a direção que aponta para o autoconhecimento, para iluminação interna e eterna.

Não! Infelizmente ele era entendido como o “Orixá da Guerra”, um homem impiedoso que utiliza – se de sua espada para resolver qualquer situação. E logo, inspirados por isso, lá iam os filhos de fé esquecer dos trabalhos de assistência a espíritos sofredores, a almas perdidas entre mundos, aos trabalhos de cura, esqueciam do amor e da compaixão, sentimentos básicos em qualquer trabalho espiritual, para apenas realizaram “quebras e cortes” de demandas, muitas das quais nem mesmo existem, ou quando existem, muitas vezes são apenas reflexos do próprio estado de espírito de cada um. E mais, normalmente, tudo isso torna – se uma guerra de vaidade, um show “pirotécnico” de forças ocultas. Muita “espada”, muito “tridente”, muitas “armas”, pouco coração, pensamento elevado e crescimento espiritual.

Isso magoava Ogum. Como magoava:

_ Ah, filhos de Umbanda, por que vocês esquecem que Umbanda é pura e simplesmente amor e caridade? A minha espada sempre protege o justo, o correto, aquele que trabalha pela luz, fiando seu coração em Olorum. Por que esquecem que a Espada da Lei só pode ser manuseada pela mão direita do amor, insistindo em empunhá – la com a mão esquerda da soberbia, do poder transitório, da ira, da ilusão, transformando – na em apenas mais uma espada semeadora de tormentos e destruição…

Então, Ogum começou a retirar sua armadura, que representava a proteção e firmeza no caminho espiritual que esse Orixá traz para nossa vida. E totalmente nu ficou frente à Iemanjá. Cravou sua espada no solo. Não queria mais lutar, não daquele jeito. Estava cansado…

Logo um estrondo foi ouvido e o querido, mas também temido Tatá Omulu apareceu. E por incrível que pareça o mesmo aconteceu. Ele não agüentava mais ser visto como uma divindade da peste e da magia negativa. Não entendia, como ele, o guardião da Vida podia ser invocado para atentar contra Ela. Magoava – se por sua alfange da morte, que é o princípio que a tudo destrói, para que então a mudança e a renovação aconteçam, ser tão temida e mal compreendida pelos homens.

Ele também deixou sua alfange aos pés de Iemanjá, e retirou seu manto escuro como a noite. Logo via – se o mais lindo dos Orixás, aquele que usa uma cobertura para não cegar os seus filhos com a imensa luz de amor e paz que irradia – se de todo seu ser. A luz que cura, a luz que pacifica, aquela que recolhe todas as almas que perderam – se na senda do Criador. Infelizmente os filhos de fé esquecem disso…

Mas o mais incrível estava por acontecer. Uma tempestade começou a desabar aumentando ainda mais o aspecto incrível e tenebroso daquela estranha noite. E todos os outros Orixás começaram a aparecer, para logo, começarem também a despir suas vestimentas sagradas, além de deixarem ao pé de Iemanjá suas armas e ferramentas simbólicas.

Faziam isso em respeito a Ogum e Omulu, dois Orixás muito mal compreendidos pelos umbandistas. Faziam isso por si próprios. Iansã queria que as pessoas entendessem que seus ventos sagrados são o sopro de Olorum, que espalha as sementes de luz do seu amor. Oxossi queria ser reverenciado como aquele que, com flechas douradas de conhecimento, rasga as trevas da ignorância. Egunitá apagou seu fogo encantador, afinal, ninguém lembrava da chama que intensifica a fé e a espiritualidade. Apenas daquele que devora e destrói. Os vícios dos outros, é claro.

Um a um, todos foram despindo – se e pensando quanto os filhos de Umbanda compreendiam erroneamente os Orixás.

Iemanjá, totalmente surpresa e sem reação, não sabia o que fazer. Foi quando uma irônica gargalhada cortou o ambiente. Era Exu. O controvertido Orixá das encruzilhadas, o mensageiro, o guardião, também chegava para a reunião, acompanhado de Pombagira, sua companheira eterna de jornada.

Mas os dois estavam muito diferentes de como normalmente apresentam – se. Andavam curvados, como que segurando um grande peso nas costas. Tinham na face, a expressão do cansaço. Mas, mesmo assim, gargalhavam muito. Eles nunca perdiam o senso de humor!

E os dois também repetiram aquilo que todos os Orixás foram fazer na casa de Iemanjá. Despiram – se de tudo. Exu e Pombagira, sem dúvida, eram os que mais razões tinham de ali estarem. Enúmeros eram os absurdos cometidos por encarnados em nome deles. Sem contar o preconceito, que o próprio umbandista ajudou a criar, dentro da sociedade, associando – o a figura do Diabo:

_Hahaha, lamentável essa situação, hahaha, lamentável! _ Exu chorava, mas Exu continuava a sorrir. Essa era a natureza desse querido Orixá.

Iemanjá estava desesperada! Estavam todos lá, pedindo a ela um conforto. Mas nem mesmo a encantadora Rainha do Mar sabia o que fazer:

Espere!_ pensou Iemanjá!_ Oxalá, Oxalá não está aqui! Ele com certeza saberá como resolver essa situação.

E logo Iemanjá colocou – se em oração, pedindo a presença daquele que é o Rei entre os Orixás. Oxalá apresentou – se na frente de todos. Trazia seu opaxorô, o cajado que sustenta o mundo. Cravou ele na Terra, ao lado da espada de Ogum. Também despiu – se de sua roupa sagrada, pra igualar – se a todos, e sua voz ecoou pelos quatro cantos do Orun:

_ Olorum manda uma mensagem a todos vocês meus irmãos queridos! Ele diz para que não desanimem, pois, se poucos realmente os compreendem, aqueles que assim o fazem, não medem esforços para disseminar essas verdades divinas. Fechem os olhos e vejam, que mesmo com muita tolice e bobagem relacionada e feita em nossos nomes, muita luz e amor também está sendo semeado, regado e colhido, por mãos de sérios e puros trabalhadores nesse às vezes triste, mas abençoado planeta Terra. Esses verdadeiros filhos de fé que lutam por uma Umbanda séria, sem os absurdos que por aí acontecem. Esses que muito além de “apenas” prestarem o socorro espiritual, plantam as sementes do amor dentro do coração de milhares de pessoas. Esses que passam por cima das dificuldades materiais, e das pressões espirituais, realizando um trabalho magnífico, atendendo milhares na matéria, mas também, milhões no astral, construindo verdadeiras “bases de luz” na crosta, onde a espiritualidade e religiosidade verdadeira irão manifestar-se. Esses que realmente nos compreendem e buscam – nos dentro do coração espiritual, pois é lá que o verdadeiro Orun reside e existe. Esses incríveis filhos de umbanda, que não colocam as responsabilidades da vida deles em nossas costas, mas sim, entendem que tudo depende exclusivamente deles mesmos. Esses fantásticos trabalhadores anônimos, soltos pelo Brasil, que honram e enchem a Umbanda de alegria, fazendo a filhinha mais nova de Olorum brilhar e sorrir…

Quando Oxalá calou – se os Orixás estavam mudados. Todos eles tinham suas esperanças recuperadas, realmente viram que se poucos os compreendiam, grande era o trabalho que estava sendo realizado, e talvez, daqui algum tempo, muitos outros juntariam – se nesse ideal. E aquilo alegrou – os tanto que todos começaram a assumir suas verdadeiras formas, que são de luzes fulgurantes e indescritíveis. E lá, do plano celeste, brilharam e derramaram – se em amor e compaixão pela humanidade.

Em Aruanda, os caboclos, pretos – velhos e crianças, o mesmo fizeram. Largaram tudo, também despiram – se e manifestaram sua essência de luz, sua humildade e sabedoria comungando a benção dos Orixás.

Na Terra, baianos, marinheiros, boiadeiros, ciganos e todos os povos de Umbanda, sorriam. Aquelas luzes que vinham lá do alto os saudavam e abençoavam seus abnegados e difíceis trabalhos. Uma alegria e bem – aventurança incríveis invadiram seus corações. Largaram as armas. Apenas sorriam e abraçavam – se. O alto os abençoava…

Mas, uma ação dos Orixás nunca fica limitada, pois é divina, alcançando assim, a tudo e a todos. E lá no baixo astral, aqueles guardiões e guardiãs da lei nas trevas também foram alcançados pelas luzes Deles, os Senhores do Alto. Largaram as armas, as capas, e lavaram suas sofridas almas com aquele banho de luz. Lavaram seus corações, magoados por tanta tolice dita e cometida em nome deles. Exus e Pombagiras, naquele dia foram tocados pelo amor dos Orixás, e com certeza, aquilo daria força para mais muitos milênios de lutas insaciáveis pela Luz.

Miríades de espíritos foram retirados do baixo – astral, e pela vibração dos Orixás puderam ser encaminhados novamente à senda que leva ao Criador. E na matéria toda a humanidade foi abençoada. Aos tolos que pensam que Orixás pertencem a uma única religião ou a um povo e tradição, um alerta. Os Orixás amam a humanidade inteira, e por todos olham carinhosamente.

Aquela noite que tinha tudo para ser uma das mais terríveis de todos os tempos, tornou – se benção na vida de todos. Do alto ao embaixo, da esquerda até a direita, as egrégoras de paz e luz deram as mãos e comungaram daquele presente celeste, vindo diretamente do Orun, a morada celestial dos Orixás.

Vocês, filhos de Umbanda, pensem bem! Não transformem a Umbanda em um campo de guerra, onde os Orixás são vistos como “armas” para vocês acertarem suas contas terrenas. Muito menos esqueçam do amor e compaixão, chaves de acesso ao mistério de qualquer um deles. Umbanda é simples, é puro sentimento, alegria e razão. Lembrem – se disso.

E quanto a todos aqueles, que lutam por uma Umbanda séria, esclarecida e verdadeira, independente da linha seguida, lembrem – se das palavras de Oxalá ditas linhas acima.

Não desanimem com aqueles que vos criticam, não fraquejem por aqueles que não tem olhos para ver o brilho da verdadeira espiritualidade.

Lembrem – se que vocês também inspiram e enchem os Orixás de alegria e esperança. A todos, que lutam pela Umbanda nessa Terra de Orixás, esse texto é dedicado.  Honrem – los. Sejam luz, assim como Eles!

Exe ê o babá (Salve o Pai Oxalá)

Por Fernando Sepe

A Súplica do Exu

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Por A.J. Castro da Cabana de Lázaro

Eu Sou Exu, Senhor!

Pai, permite que assim te chame, pois, na realidade, Tu o és, como és meu criador. Formaste-me da poeira Ástrica, mas como tudo que provém de Ti, sou real e eterno.

Permite Senhor, que eu possa servir-Te nas mais humildes e desprezíveis tarefas criadas pelos teus humanos filhos. Os homens me tratam de anjo decaído, de povo traidor, de rei das trevas, de gênio do mal e de tudo o mais em que encontram palavras para exprimir o seu desprezo por mim; no entanto, nem suspeitam que nada mais sou do que o reflexo deles mesmos.

Não reclamo, não me queixo porque esta é a Tua vontade.

Sou escorraçado, sou condenado a habitar as profundezas escuras da terra e trafegar pelas sendas tortuosas da provação.

Sou invocado pela inconsciência dos homens a prejudicar o seu semelhante. Sou usado como instrumento para aniquilar aqueles que são odiados, movido pela covardia e maldade humanas sem contudo poder negar-me ou recorrer.

Pelo pensamento dos inconscientes, sou arrastado a exercer a descrença, a confusão e a ignominia, pois esta é a condição que Tu me impuseste. Não reclamo, Senhor, mas fico triste por ver os teus filhos, que criaste à Tua imagem e semelhança, serem envolvidos pelo turbilhão de iniqüidades que eles mesmos criam, e eu, por Tua lei inflexível, delas tenho que participar.

No entanto, Senhor, na minha infinita pequenez e miséria, como me sinto grande e feliz quando encontro n’algum coração, um oásis de amor e sou solicitado a ajudar na prestação de uma caridade.

Aceito sem queixumes, Senhor, a lei que, na Tua infinita sabedoria e justiça, me impuseste, a de executor das consciências, mas lamento e sofro mais porque os homens até hoje, não conseguiram compreender-me.

Peço-Te, Oh Pai infinito, que lhes perdoe.

Peço-Te, não por mim, pois sei que tenho que completar o ciclo da minha provação, mas por eles, os teus humanos filhos.

Perdoa-os, e torna-os bons, porque somente através da bondade do seu coração, poderei sentir a vibração do Teu amor e a graça do Teu perdão.

Enquanto as Trevas em meu coração não fizerem morada, pelo meu Criador, Nelas eu trabalharei.

Humanidade sofrida, que se arrasta em seu próprio lixo, não percebe que vós sois os culpados por toda a maldade e tristeza do mundo? Por que culpam os demônios, se em vós eles se encontram?

Por que escondem – se de si mesmos e não enfrentam esse “lobo”, que vive transvestido com o hábito sagrado?

Dizem que Exu é uma entidade perversa, uma entidade que deve ser temida. Ora, eu já assumi o meu “lobo” há muito tempo, se não sou santo, também não sou mais um hipócrita que se auto – engana, fechando os próprios olhos e virando as costas para as Trevas, que também fazem parte de mim.

Deus é o TODO e em TUDO está.

Abram os olhos e enfrentem hoje as Trevas que vivem em vós, para amanhã não perderem – se nelas.

Um verdadeiro guerreiro da luz e amor do Criador pode “entrar e sair” do mais profundo inferno, pois nele, as trevas já foram combatidas e vencidas.

Honra e caráter todos nós, Exus trazemos, pois um dia já enfrentamos as nossas “trevas pessoais”, cara a cara. E vós, até quando serão falsos cordeiros mansos e serenos?

A oportunidade da encarnação lhes foi dada. Aproveitem. Nunca houve tanta abertura de conhecimento, dessa vez não tem como errar. Tudo que fizerem será pouco pelo o que o Criador está lhes dando. Tudo que errarem, será muito…

Aqueles que ouvirem o chamado da evolução, em nós terão aliados. Enquanto aqueles que preferem negar e esconder as Trevas em si, nada faremos, afinal um dia ela há de possuí –los.

Levanta – te e enfrenta a si mesmo!

Um Exu, por honra e amor ao Criador!

(Sepe, esse texto é a descrição das palavras de um Exu amigo ditas a mim. Junto com o texto de baixo e o texto postado acima, penso, trazem informações bem legais e complementares a respeito de luz e trevas…)

O Axé sem Sabedoria

12Pergaminho

Muitos que me conhecem, sabe da profunda importância que eu dou para o conhecimento dentro da liturgia umbandista, acima disso, todos os filhos da casa, de onde eu sou pai pequeno, faço questão de saberem todo o contexto introdutório dentro de minha teoria, é claro, sobre os guias, orixás, liturgias, entre outras coisas.

Para quem ainda não sabe, eu sou totalmente avesso ao batimento de cabeça, se em minha casa, enfatizo a humildade e a igualdade entre irmãos, todos nós estamos nessa eterna escola de aprendizado chamado Vida, por onde, todos erramos, portanto, não acho que ninguém nesse plano, ou melhor, quase ninguém, possui atributos irrefutáveis para as pessoas se ajoelharem a ela, não gosto de ninguém batendo cabeça a mim, pois não sou digno de tal, muitos podem falar que é uma demonstração de respeito, concordo plenamente, mas podem demonstrar isso ao meu orixá, pois sou tão igual como o adepto que ali adentra.

Mas voltando ao escopo da postagem, eu sou adepto ao meu teorema que eu costumo dizer na casa, “Medium ignorante, guia ignorante”, baseando nisso, faço questão de fornecer toda a teoria litúrgica da casa, bem como as formas das quais vemos as entidades, as linhas e o axé em si.

Para entenderem mais ou menos o que quero propor, vou contar uma pequena história que ocorreu há uns dias atrás:

Chegaram duas mediuns na casa no último domingo, eram de outra casa e estavam procurando um novo centro para frequentarem.

Nós sentimos quando as pessoas são mediuns, não? Mal iniciei com os pontos de abertura para os orixás, e já começaram a se “pipocar” dentro da assistência (Algo que eu discordo totalmente, se o guia quer trabalhar, ele aguarda o momento dele), tomei a atitude de costume, muito criticada por todos por sinal, de fingir que nem vi o que estava acontecendo.

Costumo ignorar para não dar mais asas à imaginação do medium.

É interessante como isso ocorre, você começa a ignorar, o guia deixa de fazer questão de vir, mas enfim, continuando… Gira de caboclo, hora do passe, as filhas adentraram-se na corrente, antes de ao menos algum guia da corrente chamar, já incorporaram e o caboclo já pedindo charuto.

Eu, com a calma de sempre, cortei…

Disse calmamente:

- Meu pai, é contra as regras da casa fornecer qualquer material para entidades que não fazem parte da corrente. Por incrível que pareça, o caboclo todo irritado, disse que sem aquilo não trabalhava. (Tudo bem, mas quem o chamou ali? rsrsrs).

O caboclo subiu todo irritado.  (Primeiro gente, guia irritado? Segundo, guia subir pq não satisfizemos às suas vontades? Vaidade?) Dando continuidade aos trabalhos, tive o azar do mentor da casa querer virar o trabalho para exú, logo pensei: “Pronto, é melhor nem incorporar porque vai dar pano pra manga”.

Começou a puxar a esquerda e a pombagira dessa filha já veio virada da assistência (Juro, era o que eu temia). O sacerdote da casa é a calma em pessoa, deixa tudo correr frouxo, ele mesmo me disse que me outorgou o título de pai pequeno, pq ele é o bom e eu o ruim, com isso a casa ficaria equilibrada.

E a pombagira veio, falou as “do fim” porque eu não dei charuto pro penudo, que ele precisava descarregar, que é uma falta de respeito e tudo mais. Que é inadmissível alguém negar algo pra um guia, que é uma falta de respeito e que o caboclo iria castigar a casa.

Eu disse: – Primeiro, falta de respeito é uma entidade vir, sem ao menos ser chamada, e já exigir fumo sem ao menos fazer parte da egrégora da corrente.

Pior ainda é vir na assistência, sem ao menos ser chamado para agregar nos trabalhos.

[É incrível como esse pessoal que vem de Umbanda traçada ou até mesmo candomblé gostam de roubar a cena e ainda querer dominar os trabalhos, já vi centro de Umbanda que quando chega um sacerdote de outra casa, principalmente candomblé, só falta bater cabeça pra ele, ali não, comigo não, rsrsrsrs.]

A pombagira começou a me ameaçar, que se eu não fizesse o que ela queria, ela tiraria a minha vida, ou meu carro ou até mesmo meu amor. Depois eu continuo a história….

Não percam o próximo capítulo da saga “A Pombagira e o pai-pequeno”.

Onde eu quero chegar com tudo isso? Primeiro, guia de luz não faz ameaça, é fato…

Segundo, que entidade teria o poder de levar a vida de alguém? Tomar meu carro?

Onde eu quero chegar, é que se o filho fosse devidamente doutrinado e instruído, fatalmente isso não aconteceria, principalmente não existiriam mediuns nômades, o que ocorre sempre, mediuns buscando casas para desafiarem e se exibirem com o que nada têm: O Conhecimento. Mediuns esses carentes de atenção e que procuram casas para serem bajulados e chamarem a atenção pelos seus guias. Vaidade, gente. Vaidade!!!

Em minha casa, prego muito mais o conhecimento, a sabedoria, a caridade à apoteose. É claro, há coisas que agradam aos nossos olhos, é muito legal ver uma entidade dançando bem, um belo grito de um boiadeiro, mas como já dizia o velho sábio: “O Essencial é invisível aos olhos”.

Então queridos mediuns, estudem, procurem, porque vocês são o princípio ativo da incorporação, o espírito amparador tem força, tem sabedoria, mas para ele atingir o consulente, ele necessita de você, cabe a você ter todas as ferramentas necessárias para auxiliar o trabalho de seu guia. Comecem com o conhecimento, com a sabedoria, é o princípio reagente para qualquer outras necessidades para se tornarem ótimos mediuns.

Paz Profunda

Neófito da Luz

Uma breve Homenagem ao Sr. Chico Preto

 

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Raras são as informações que se obtém dele, o nome desse blog foi justamente em homenagem a esse grande Pai, a esse grande Espírito do qual o Cosmico me presenteou, é um amigo, um pai, um irmão, um protetor, um verdadeiro mestre da Escola da Vida.

Eu me lembro como se fosse ontem a sua primeira aparição… Era uma gira de baianos, onde em minha mente, plasmou-se uma entidade como se fosse um roceiro, o mais interessante, foi que eu o vi em uma árvore, em um local que parecia uma chácara, uma fazenda, estava ali, um belo senhor simpático, chapéu diferenciado, não era bem de palha, um material diferenciado, calças dobradas e uma camiseta amarela.

O que mais me chamou a atenção foi o tamanho do seu cachimbo, é um cachimbo muito grande e feito artesanalmente, o cabo de madeira e onde guardamos o fumo, material de barro, feito também artesanalmente.

Em questão de segundos fui influenciado pela sua vibração, uma vibração extremamente sutil, diferenciada da vibração de baianos que eu já estava habituado, lentamente foi tomando conta dos meus sentidos e quando dei por mim, já estava com a visão meia turva, falando diferente com um sotaque extremamente mineiro, muito simpático e alegre.

Mas veio, falou muito pouco, talvez por não estar habituado com a minha energia, não tenha incorporado de uma forma tão completa, mas ele solicitou o cachimbo, da forma que eu havia visto e disse apenas que o nome dele era “Amor” e que trabalhava na falange da “Caridade”, talvez para me ensinar que nome não é tudo, porque é a primeira coisa que eu quero saber de uma entidade é o nome, para eu correr atrás das pesquisas.

Após algumas semanas de trabalho, ele foi moldando-se mais à minha energia e foi trabalhando da forma que ele realmente atuava, já com o seu cachimbo, e diga-se de passagem, me deu a maior vontade de entrar do nada em uma casa do norte e acabei achando logo os dois juntos, o cachimbo e o seu chapéu, achei uma bênção. Mais solto, mais desenvolto em minha matéria e com o axé da casa, entoou um ponto assim:

Eu vim de Minas
Mas Nasci no Piauí
Saravá Sr. Chico Preto
O que vem fazer aqui?

Confesso que eu estava “assistindo” de uma visão pouco privilegiada o seu trabalho, mesmo assim, me encantei na primeira vez que o vi.

Com o passar do tempo, após alguma labuta e nenhuma informação eu obtive, em um dos trabalhos ele trouxe mais alguns pontos:

Sr. Chico Preto, Chico Preto Tenha dó (bis)
Venha cá salvar seus filhos
Tu é mestre do Catimbó

Todo mundo quer, quer, quer, quer
Chico Preto quimbandeiro lá do povo da Guiné

Lá na Jurema teve um fuá
Levaram o Milharal
Quem levou foi Chico Preto
Pra levar todos os Mal

Aí fui me apaixonando, pelo seu sotaque, pela sua alegria, pela forma que conduzia os trabalhos, um carisma singular, e com isso, foi atraindo a atenção dos filhos da corrente e dos assistentes que ali adentravam.

Aí veio um outro grande problema: Ele pediu uma batida de milho, mais uma vez, corri atrás de algo bem peculiar de seu trabalho,  a facilidade que eu tive pra achar seu cachimbo se inverteu, mas procurando, procurando, achei uma casa do norte que vendia batida de milho, e logo comprei.

Mesmo não sabendo nada sobre Chico Preto, comecei a procurar a pesquisar o catimbó e em alguns fóruns, conheci a Aparecida, uma mulher de 52 anos que já conhecia o catimbó desde os 10, e começou a me falar muito de Chico Preto, inclusive, do uso de cachimbos artesanais no culto à Jurema, vulgo Catimbó, onde a fumaça é a principal fonte de trabalho do catimbó devido às raízes da pajelança. Vi que a forma que eles trabalham, não condizia muito com a minha crença esotérica na Umbanda, atuavam também sobre uma camada de trabalho mais densa.

Aí foi quando comecei a me perguntar em meu limitado conhecimento: Como um adepto à Umbanda Esotérica, pode começar a vibrar com uma energia mais densa? Um guia de catimbó na minha corrente umbandista sendo que eu nem sei o que é isso? Por que comigo?

Para responder calmamente a essas perguntas, como é de sua característica, a calma e o humor são ímpares nessa entidade, ele me explicou que primeiramente, não há ninguém tão ignorante que não tenha o que ensinar e nem tão sábio que não tenha o que aprender, com a permissão de minhas entidades, ele “enconstou” para contribuir com o meu crescimento e aprender algumas coisas que ocorriam ali dentro do casuá. Depois, ele me perguntou: Quem te disse que só atuo no catimbó? Que sou apenas um juremeiro? Eu trouxe essa força, primeiro para contribuir com a casa, segundo para que você aprenda a ser menos preconceituoso.

De qualquer forma fiquei muito alegre com sua chegada, ele é um guia que canta muito, faz todo mundo cantar com ele, é um ser extremamente dócil e humilde, abraça a todos, conversa com todos, sabe fazer as pessoas que chegam até ele se sentirem muito à vontade.

Como de costume, antes de me deitar realizo todo um ritual de limpeza, energizando uma grande luz branca pousando sobre meu coronário, atuando nos meus sete chakras principais e depois toda as más energias repousam sobre a Terra, sendo absorvidas pela vibração de Obaluaie, nesse dia, havia algo muito estranho, comecei a sentir um calor no corpo e me apareceu um mentor muito bem vestido e de muita luz, causando um calor intenso sobre meu cardíaco e plexo solar, com  aparição desse mentor de luz, me começou a vir várias impressões, ensinamentos, entre outras soluções para minhas dúvidas, o mentor estava vestido com roupas orientais, grande quantidade de panos sobre suas vestes, mas como é inerente a mim, questionei o seu nome, ele com um sorriso que logo reconheci, disse: Pode me chamar de Chico Preto.

Com isso, uma outra resposta me veio de imediato, quando venho como um mineiro faceiro, venho de forma humilde, para todos aqueles humildes de coração, com carência de conhecimento, não sintam-se diminuídos a chegarem a mim, não venho para doutores e letrados, venho apenas para aqueles aflitos que buscam na simplicidade da palavra, sua salvação, para aqueles que buscam entre seus semelhantes, ou seja, o sotaque, o fumo, a bebida, buscam um amigo.

E assim solucionei a minha dúvida sobre um guia de catimbó ter encostado, o que eu entendi é que talvez tenha escolhido essa forma de trabalho, primeiro para eu conhecer mais o culto ao catimbó, segundo para que pudesse me ensinar que os guias podem plasmar-se e diminuir sua vibração para atuar em seu orbe, e ele acrescentou: Já fui sim uma pessoa simples que viveu no que vocês chamam de roça, já nasci e me criei por essas Terras e agora escolhi vim de uma forma semelhante para atuar também na Umbanda, que é um Grande Pronto Socorro Celestial.

Aprendi que nem todos os guias que optaram por trabalhar em uma vibração mais densa são espíritos atrasados, mas podem ser espíritos de grande evolução que por sua humildade, também auxiliam os irmãos mais atrasados. E gostaria de salientar que esse Chico Preto foi o que praticamente assumiu todos os trabalhos de consulta e que conduz a gira quando o sacerdote da casa está desincorporado. Chamou a responsabilidade pra ele e graças a Deus tem dado conta.

Como ele mesmo diz: Sem alegria nada se faz, sem sorriso nada se conquista, vamos cantar, vamos sorrir, aqui dentro quero farra, quero ver felicidade.

 

Saravá Sr. Chico Preto

Salve os Mistérios Umbandistas

Salve os Grandes Mestres Cósmicos

 

 

Sete Lágrimas de um Preto Velho

Num cantinho de um terreiro, sentado num banquinho, pitando o seu cachimbo, um triste preto velho chorava. .. 
De seus olhos molhados, lágrimas desciam-lhe pelas faces e, não sei porque, contei-as… Foram sete! 
Na incontida vontade de saber,aproximei-me e o interroguei… 
- Fala meu preto velho, diz ao teu filho porque externas assim uma tão visível dor? 
E ele, suavemente respondeu… 
- Estás vendo esta multidão que entra e sai? As lágrimas contadas são distribuídas a cada uma delas. 

A primeira, eu dei a estes indiferentes que aqui vem em busca de distração, para saírem ironizando aquilo que suas ofuscadas mentes não podem conceber… 

A segunda, a esses eternos duvidosos que acreditam, desacreditando, na expectativa de um milagre que os façam alcançar aquilo que os seus próprios merecimentos negam… 

A terceira, distribuí aos maus, aqueles que somente procuram a Umbanda em busca de vingança, desejando sempre prejudicar um semelhante… 

A quarta, aos frios e calculistas, que sabem que existe uma força espiritual e procuram beneficiar-se dele de qualquer forma e não conhecem a palavra gratidão… 

A quinta, chega suave, tem o riso e o elogio da flor nos lábios, mas se olharem bem o seu semblante, verão escrito “Creio na Umbanda, nos seus caboclos e no seu Zambi, mas somente se vencerem o meu caso, ou me curarem disso ou daquilo”… 

A sexta, eu dei aos fúteis, que vão de terreiro em terreiro, não acreditando em nada, buscam aconchegos e conchavos, porém seus olhos revelam um interesse diferente… 

A sétima filho, notas como foi grande e como deslizou pesada, foi a última lágrima, aquela que vive nos olhos de todos os orixás; fiz doação dessa aos médiuns, vaidosos, que só aparecem no terreiro em dias de festa e faltam as doutrinas. Esquecem que existem tantos irmãos precisando de caridade e tantas criancinhas precisando de amparo material e espiritual… 

E assim, filho meu, foi para esses todos, que viste uma a uma, as sete lágrimas desse preto velho!

Serões de Pai Velho

 

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ZIVAN – O que é a pemba e para que serve?


PAI VELHO – Pemba era um giz de fabricação especial, obtido através de um rito ou cerimônia. Passava de geração a geração e servia para grafar determinados sinais cabalísticos ou mágicos, com as mais diferentes significações, os quais variavam desde o nome da entidade que os firmava até às ordens astrais, envolvendo as mais diversas classes de entidades. De modo geral, porém, os sinais riscados pela pemba eram para uso de magia.

ZIVAN – Qual é o verdadeiro valor oculto, ou de imantação, da pemba?


PAI VELHO – Nenhum, pois o valor e a finalidade não estão no giz, e sim nos sinais grafados. O giz comum serve perfeitamente para o fim a que se destina: é inclusive mais barato e econômico.
    A grande quantidade de pembas preconizadas para esse ou aquele fim é pura especulação comercial, sem o mínimo valor cerimonial ou oculto. Risca-se ponto demais. Com pembas ditas de Angola, do Congo, da Costa e de Moçambique. Os pontos autênticos das verdadeiras entidades são raros.

    Sabendo que a magia não está na pemba e sim nos sinais que a entidade firmou, vamos apreciar o assunto em seus menores detalhes.

    O Ponto Riscado, ou a Grafia do Orixá, é uma ordem escrita a uma série de entidades, desde os espíritos da natureza aos Exus e até a espíritos sensíveis às figuras geométricas.
    O ponto completo obedece a sete sinais positivos que o identificam:

  • A que vibração primordial-forma pertence a entidade: caboclo, preto-velho ou criança;
  • A que linha pertence, dentro das sete fundamentais;
  • A falange ou subfalange, bem com o grau hierárquico dentro dos três planos de manifestação: Orixá, do Guia ou do Protetor;
  • Planeta regente e signo zodiacal;
  • Cor Fluídica Esotérica;
  • Elemento que manipula, figura geométrica, corrente cósmica e metal correspondente;
  • Entidades que comanda, quer as chamadas naturais, humanos ou não e artificais.

     Além desses sinais positivos existem os negativos, ocultos.

    O ponto riscado é a própria história da entidade e dos auxiliares que a acompanham em seus trabalhos. É através dele que também podem ser efetuadas todas as fixações de magia, as ordens a uma série infindável de espíritos, obedecidas religiosamente. Traçado de pemba é coisa muito séria e pode, inclusive, pela leviandade de se riscar pontos sem o mínimo conhecimento, desencadear as mais imprevisíveis forças, às vezes com conseqüências irremediáveis.
    A questão dos pontos é tão importante que todos têm nas palmas das mãos o selo dos Orixás responsáveis pelos destinos de cada um, como dizem os estudiosos da Quiromancia.

 

Serões de Pai Velho – Roger Feraudy 

A Tristeza dos Orixás

 

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Foi, não há muito tempo atrás, que essa história aconteceu. Contada aqui de uma forma romanceada, mas que trás em sua essência, uma verdadeira mensagem para os umbandistas…

Ela começa em uma noite escura e assustadora, daquelas de arrepiar os pelos do corpo. Realmente o Sol tinha escondido – se nesse dia, e a Lua, tímida, teimava em não iluminar com seus encantadores raios, brilhosos como fios de prata, a morada dos Orixás.

Nessa estranha noite, Ogum, o Orixá das “guerras”, saiu do alto ponto onde guarda todos os caminhos e dirigiu – se ao mar. Lá chegando, as sereias começaram a cantar e os seres aquáticos agitaram – se. Todos adoravam Ogum, ele era tão forte e corajoso.

Iemanjá que tem nele um filho querido, logo abriu um sorriso, aqueles de mãe “coruja” quando revê um filho que há tempos partiu de sua casa, mas nunca de sua eterna morada dentro do coração:

_ Ah Ogum, que saudade, já faz tanto tempo! Você podia vir visitar mais vezes sua mãe, não é mesmo? _ ralhou Iemanjá, com aquele tom típico de contrariedade.

_Desculpe, sabe, ando meio ocupado_ Respondeu um triste Ogum.

_Mas, o que aconteceu? Sinto que estás triste.

_É, vim até aqui para “desabafar” com você “mãeinha”. Estou cansado! Estou cansado de muitas coisas que os encarnados fazem em meu nome. Estou cansado com o que eles fazem com a “ espada da Lei” que julgam carregar. Estou cansado de tanta demanda. Estou muito mais cansado das “supostas” demandas, que apenas existem dentro do íntimo de cada um deles…Estou cansado…

Ogum retirou seu elmo, e por de trás de seu bonito capacete, um rosto belo e de traços fortes pôde ser visto. Ele chorava. Chorava uma dor que carregava há tempos. Chorava por ser tão mal compreendido pelos filhos de Umbanda.

Chorava por ninguém entender, que se ele era daquele jeito, protetor e austero, era porque em seu peito a chama da compaixão brilhava. E, se existe um Orixá leal, fiel e companheiro, esse Orixá é Ogum. Ele daria a própria Vida, por cada pessoa da humanidade, não apenas pelos filhos de fé. Não! Ogum amava a humanidade, amava a Vida.

Mas infelizmente suas atribuições não eram realmente entendidas. As pessoas não viam em sua espada, a força que corta as trevas do ego, e logo a transformavam em um instrumento de guerra. Não vinham nele a potência e a força de vencer os abismos profundos, que criam verdadeiros vales de trevas na alma de todos. Não vinham em sua lança, a direção que aponta para o autoconhecimento, para iluminação interna e eterna.

Não! Infelizmente ele era entendido como o “Orixá da Guerra”, um homem impiedoso que utiliza – se de sua espada para resolver qualquer situação. E logo, inspirados por isso, lá iam os filhos de fé esquecer dos trabalhos de assistência a espíritos sofredores, a almas perdidas entre mundos, aos trabalhos de cura, esqueciam do amor e da compaixão, sentimentos básicos em qualquer trabalho espiritual, para apenas realizaram “quebras e cortes” de demandas, muitas das quais nem mesmo existem, ou quando existem, muitas vezes são apenas reflexos do próprio estado de espírito de cada um. E mais, normalmente, tudo isso torna – se uma guerra de vaidade, um show “pirotécnico” de forças ocultas. Muita “espada”, muito “tridente”, muitas “armas”, pouco coração, pensamento elevado e crescimento espiritual.

Isso magoava Ogum. Como magoava:

_ Ah, filhos de Umbanda, por que vocês esquecem que Umbanda é pura e simplesmente amor e caridade? A minha espada sempre protege o justo, o correto, aquele que trabalha pela luz, fiando seu coração em Olorum. Por que esquecem que a Espada da Lei só pode ser manuseada pela mão direita do amor, insistindo em empunhá – la com a mão esquerda da soberbia, do poder transitório, da ira, da ilusão, transformando – na em apenas mais uma espada semeadora de tormentos e destruição…

Então, Ogum começou a retirar sua armadura, que representava a proteção e firmeza no caminho espiritual que esse Orixá traz para nossa vida. E totalmente nu ficou frente à Iemanjá. Cravou sua espada no solo. Não queria mais lutar, não daquele jeito. Estava cansado…

Logo um estrondo foi ouvido e o querido, mas também temido Tatá Omulu apareceu. E por incrível que pareça o mesmo aconteceu. Ele não agüentava mais ser visto como uma divindade da peste e da magia negativa. Não entendia, como ele, o guardião da Vida podia ser invocado para atentar contra Ela. Magoava – se por sua alfange da morte, que é o princípio que a tudo destrói, para que então a mudança e a renovação aconteçam, ser tão temida e mal compreendida pelos homens.

Ele também deixou sua alfange aos pés de Iemanjá, e retirou seu manto escuro como a noite. Logo via – se o mais lindo dos Orixás, aquele que usa uma cobertura para não cegar os seus filhos com a imensa luz de amor e paz que irradia – se de todo seu ser. A luz que cura, a luz que pacifica, aquela que recolhe todas as almas que perderam – se na senda do Criador. Infelizmente os filhos de fé esquecem disso…

Mas o mais incrível estava por acontecer. Uma tempestade começou a desabar aumentando ainda mais o aspecto incrível e tenebroso daquela estranha noite. E todos os outros Orixás começaram a aparecer, para logo, começarem também a despir suas vestimentas sagradas, além de deixarem ao pé de Iemanjá suas armas e ferramentas simbólicas. 

Faziam isso em respeito a Ogum e Omulu, dois Orixás muito mal compreendidos pelos umbandistas. Faziam isso por si próprios. Iansã queria que as pessoas entendessem que seus ventos sagrados são o sopro de Olorum, que espalha as sementes de luz do seu amor. Oxossi queria ser reverenciado como aquele que, com flechas douradas de conhecimento, rasga as trevas da ignorância. Egunitá apagou seu fogo encantador, afinal, ninguém lembrava da chama que intensifica a fé e a espiritualidade. Apenas daquele que devora e destrói. Os vícios dos outros, é claro.

Um a um, todos foram despindo – se e pensando quanto os filhos de Umbanda compreendiam erroneamente os Orixás.

Iemanjá, totalmente surpresa e sem reação, não sabia o que fazer. Foi quando uma irônica gargalhada cortou o ambiente. Era Exu. O controvertido Orixá das encruzilhadas, o mensageiro, o guardião, também chegava para a reunião, acompanhado de Pombagira, sua companheira eterna de jornada.

Mas os dois estavam muito diferentes de como normalmente apresentam – se. Andavam curvados, como que segurando um grande peso nas costas. Tinham na face, a expressão do cansaço. Mas, mesmo assim, gargalhavam muito. Eles nunca perdiam o senso de humor!

E os dois também repetiram aquilo que todos os Orixás foram fazer na casa de Iemanjá. Despiram – se de tudo. Exu e Pombagira, sem dúvida, eram os que mais razões tinham de ali estarem. Enúmeros eram os absurdos cometidos por encarnados em nome deles. Sem contar o preconceito, que o próprio umbandista ajudou a criar, dentro da sociedade, associando – o a figura do Diabo:

_Hahaha, lamentável essa situação, hahaha, lamentável! _ Exu chorava, mas Exu continuava a sorrir. Essa era a natureza desse querido Orixá.

Iemanjá estava desesperada! Estavam todos lá, pedindo a ela um conforto. Mas nem mesmo a encantadora Rainha do Mar sabia o que fazer:

Espere!_ pensou Iemanjá!_ Oxalá, Oxalá não está aqui! Ele com certeza saberá como resolver essa situação.

E logo Iemanjá colocou – se em oração, pedindo a presença daquele que é o Rei entre os Orixás. Oxalá apresentou – se na frente de todos. Trazia seu opaxorô, o cajado que sustenta o mundo. Cravou ele na Terra, ao lado da espada de Ogum. Também despiu – se de sua roupa sagrada, pra igualar – se a todos, e sua voz ecoou pelos quatro cantos do Orun:

_ Olorum manda uma mensagem a todos vocês meus irmãos queridos! Ele diz para que não desanimem, pois, se poucos realmente os compreendem, aqueles que assim o fazem, não medem esforços para disseminar essas verdades divinas. Fechem os olhos e vejam, que mesmo com muita tolice e bobagem relacionada e feita em nossos nomes, muita luz e amor também está sendo semeado, regado e colhido, por mãos de sérios e puros trabalhadores nesse às vezes triste, mas abençoado planeta Terra. Esses verdadeiros filhos de fé que lutam por uma Umbanda séria, sem os absurdos que por aí acontecem. Esses que muito além de “apenas” prestarem o socorro espiritual, plantam as sementes do amor dentro do coração de milhares de pessoas. Esses que passam por cima das dificuldades materiais, e das pressões espirituais, realizando um trabalho magnífico, atendendo milhares na matéria, mas também, milhões no astral, construindo verdadeiras “bases de luz” na crosta, onde a espiritualidade e religiosidade verdadeira irão manifestar-se. Esses que realmente nos compreendem e buscam – nos dentro do coração espiritual, pois é lá que o verdadeiro Orun reside e existe. Esses incríveis filhos de umbanda, que não colocam as responsabilidades da vida deles em nossas costas, mas sim, entendem que tudo depende exclusivamente deles mesmos. Esses fantásticos trabalhadores anônimos, soltos pelo Brasil, que honram e enchem a Umbanda de alegria, fazendo a filhinha mais nova de Olorum brilhar e sorrir…

Quando Oxalá calou – se os Orixás estavam mudados. Todos eles tinham suas esperanças recuperadas, realmente viram que se poucos os compreendiam, grande era o trabalho que estava sendo realizado, e talvez, daqui algum tempo, muitos outros juntariam – se nesse ideal. E aquilo alegrou – os tanto que todos começaram a assumir suas verdadeiras formas, que são de luzes fulgurantes e indescritíveis. E lá, do plano celeste, brilharam e derramaram – se em amor e compaixão pela humanidade.

Em Aruanda, os caboclos, pretos – velhos e crianças, o mesmo fizeram. Largaram tudo, também despiram – se e manifestaram sua essência de luz, sua humildade e sabedoria comungando a benção dos Orixás.

Na Terra, baianos, marinheiros, boiadeiros, ciganos e todos os povos de Umbanda, sorriam. Aquelas luzes que vinham lá do alto os saudavam e abençoavam seus abnegados e difíceis trabalhos. Uma alegria e bem – aventurança incríveis invadiram seus corações. Largaram as armas. Apenas sorriam e abraçavam – se. O alto os abençoava…

Mas, uma ação dos Orixás nunca fica limitada, pois é divina, alcançando assim, a tudo e a todos. E lá no baixo astral, aqueles guardiões e guardiãs da lei nas trevas também foram alcançados pelas luzes Deles, os Senhores do Alto. Largaram as armas, as capas, e lavaram suas sofridas almas com aquele banho de luz. Lavaram seus corações, magoados por tanta tolice dita e cometida em nome deles. Exus e Pombagiras, naquele dia foram tocados pelo amor dos Orixás, e com certeza, aquilo daria força para mais muitos milênios de lutas insaciáveis pela Luz.

Miríades de espíritos foram retirados do baixo – astral, e pela vibração dos Orixás puderam ser encaminhados novamente à senda que leva ao Criador. E na matéria toda a humanidade foi abençoada. Aos tolos que pensam que Orixás pertencem a uma única religião ou a um povo e tradição, um alerta. Os Orixás amam a humanidade inteira, e por todos olham carinhosamente.

Aquela noite que tinha tudo para ser uma das mais terríveis de todos os tempos, tornou – se benção na vida de todos. Do alto ao embaixo, da esquerda até a direita, as egrégoras de paz e luz deram as mãos e comungaram daquele presente celeste, vindo diretamente do Orun, a morada celestial dos Orixás.

Vocês, filhos de Umbanda, pensem bem! Não transformem a Umbanda em um campo de guerra, onde os Orixás são vistos como “armas” para vocês acertarem suas contas terrenas. Muito menos esqueçam do amor e compaixão, chaves de acesso ao mistério de qualquer um deles. Umbanda é simples, é puro sentimento, alegria e razão. Lembrem – se disso.

E quanto a todos aqueles, que lutam por uma Umbanda séria, esclarecida e verdadeira, independente da linha seguida, lembrem – se das palavras de Oxalá ditas linhas acima.

Não desanimem com aqueles que vos criticam, não fraquejem por aqueles que não tem olhos para ver o brilho da verdadeira espiritualidade.

Lembrem – se que vocês também inspiram e enchem os Orixás de alegria e esperança. A todos, que lutam pela Umbanda nessa Terra de Orixás, esse texto é dedicado.  Honrem – los. Sejam luz, assim como Eles!

 

Exe ê o babá (Salve o Pai Oxalá)

 

Por Fernando Sepe

Toques do Preto-Velho

 

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Lá nos planos sutis, aonde vocês muitas vezes vão quando dormem, mas ao acordarem não se lembram, existe uma grande família espiritual a lhes esperar, velar e torcer por vocês. Quebrem a barreira vibracional com sentimentos e pensamentos elevados, levando seus corações até eles. Mate a saudade espiritual que existe dentro do seu peito. Deixe a intuição fluir. Os guias espirituais não são mestres intocáveis que vocês devem reverenciar, mas sim, são amigos de jornadas. Conheça – os, converse com eles, trabalhem juntos, mas sorriam e brinquem juntos também. Eles estão te esperando.

Mediunidade é coisa importante e séria, mas não diviniza nem inferioriza ninguém. Vocês sabem disso. Tem gente que pensa que ser grande médium é praticar fenômenos para “incrédulo vê”. Outros pensam que é se vestir todo com uma fantasia, “virar os olhos” e “rebolar” bastante. Não! Mediunidade é você trabalhar em conjunto com os amigos do lado de cá para o bem de todos, apenas isso. Vocês complicam muito as coisas. Na verdade tudo é muito simples. Pense na manifestação das criancinhas durante um processo mediúnico. Existe algo mais simples e belo do que isso?

Parem de julgar a manifestação mediúnica ou a experiência do outro. Você pode até não concordar, mas caso para ele faça sentido, deixe. É dele! Isso lembra muito a postura daquele que não consegue fazer melhor e por isso mesmo vive a criticar e apontar o defeito dos outros. As experiências espirituais muitas vezes são de foro íntimo, cada um busca a sua. E cada um fique feliz com a sua! Aprendam também que a dedicação e o estudo ajudam muito. Mas o que realmente conta é o seu dia – dia, como pessoa comum, passando pelo crivo do grande mestre que é a vida. Não adianta nada estudar muito e praticar pouco. 

Fazer caridade é muito bom! Mas esclarecer as pessoas é melhor ainda. Tem gente que acha que doando uma cesta básica de Natal ao desencarnar será “salvo”. Outros ainda se acham muito especiais e caridosos, verdadeiros missionários. Não caiam nessa bobagem. Caso não fossem vocês, seriam outros! Aproveitem a chance que Olorum* deu, pois ao auxiliar os outros vocês ajudam a si próprios. Mas também não apenas dê o peixe, ensine as pessoas a pescarem. “Caridade de consolação” ergue a pessoa, mas depois que ela já está de pé, está na hora de ensiná – la a andar, com a “caridade de esclarecimento”. Pensem nisso! Caridade faça sempre que surgir a oportunidade de auxiliar o irmão. Esclarecimento leve a todos os lugares, fazendo a sua aura brilhar e contagiando as pessoas com alegria e vontade de viver.

Trabalho em grupo é coisa séria, não é reunião social. Os guias escutam os seus pensamentos e não estão nada interessados em suas preferências físicas, nem em suas “paqueras” dentro do grupo. Tão pouco são cúmplices das fofocas, guerras de vaidade e ciúme que existem dentro do mesmo. Um trabalho espiritual em grupo é uma benção e oportunidade única de evolução, tanto de encarnados como desencarnados. Aproveitem bem! Existe um montão de mestres esperando por vocês desse lado, mas muitas vezes eles não conseguem lhes amparar, afinal vocês não param de pensar na “vizinha”, ou como a vida é difícil e injusta…

Os Orixás, os Mestres, os Anjos, os Devas, todos Eles amam a humanidade. Caso queiram fazer um ritual a algum Deles ótimo. Mas lembrem – se sempre. Vela acesa tem muito valor, se o coração estiver aceso antes. Caso contrário, não! A energia de uma erva é poderosa e realmente cura, mas antes suas próprias energias e o respeito com a vida vegetal devem ser grandes, caso contrário, desperdiço de tempo. Qualquer ritual de magia para o bem é lindo e bem quisto pela espiritualidade. Mas não se perca no meio de muitos rituais e elementos. O grande mestre da magia é o coração, e a grande força motriz é a sua mente. Lembrem – se disso.

Não sejam espiritualistas pela metade. Durante o dia vocês ficam pensando em espiritualidade, mas ao dormir, que é a grande hora onde o espírito se liberta do corpo físico, você não pensa em nada, fica com preguiça e logo sua mente é invadida por um monte de coisas, adormecendo na mais perfeita desordem. No mínimo ore ao deitar – se. Agradeça ao dia, coloque – se a disposição de aprendizado, aproveite as horas de sono. Elas são chaves de aceso ao crescimento espiritual. Meditem nisso.

Eu sou um preto – velho*. Pouco importa minha forma ou meu nome. O que importa é que eu sou luz, como vocês e todos nós, filhos da Grande Luz. O sol de Oxalá* brilha em meu coração, no seu e em toda humanidade. Você ainda tem preconceito em relação a raças? A culturas diferentes? Religião? E julga – se espiritualistas? Ora amigo, deixe disso! Lembre – se: todos viemos da mesma fôrma. A fôrma de Oxalá.  Eu tenho apenas uma palavra para descrever o preconceito: burrice!

Burrice também são as paredes e preconceitos religiosos. Todos os mestres da humanidade pregaram o desprendimento, mas o que os seus seguidores mais fazem é ter o sentimento de posse em relação a Eles. E lá se vão guerras, ofensas e desarmonia entre uma religião e outra. E lá se vão discussões infindáveis entre doutrinas diferentes. Todos os caminhos levam a Deus, mas que você sempre acha que seu caminho é melhor do que dos outros você acha, não é mesmo? Faz um favor a humanidade: Vai voando nas asas do universalismo ecumênico! E para com essas bobagens…     

Do lado de cá nós adoramos música. Ela rejuvenesce a alma, acorda o coração e desperta a intuição. Aproveitem as músicas de qualidade. Elas são ótimas e verdadeiro brilho e alimento para vossos espíritos. Também escute a música que Os Orixás cantam secretamente dentro do coração de cada um. É a música da Criação, ela está em todos, mas só pode ser escutada quando a mente silencia e coração brilha. Pense nisso!

Pense também na natureza. Coloque uma música suave. Direcione – se mentalmente a um desses sítios sagrados, verdadeiros altares vivos do amor de Olorum. Pensa na força curativa das matas, na força amorosa e pacificadora das cachoeiras, da limpeza energética que o mar traz ao espírito. Medita neles. Isso traz sintonia, reciclagem energética e boa disposição. Faça isso por você e fique bem!

Por fim, dediquem – se mais ao autoconhecimento. Ele é super importante. E um dia, mesmo que isso demore milênios, vocês se conhecerão tanto que realmente descobrirão sua natureza divina. Nesse dia, as cortinas da ilusão se abrirão e você verá o universo a sua frente. Não existirá mais Orun* nem Ayê*. Nem eu nem você. Apenas Ele…Pai e Mãe Olorum dentro de nós mesmos!

Um Grande abraço

Pai Antônio de Aruanda e Fernando Sepe, escrito por duas mentes em um só coração  ;)

Notas do texto:

Olorum: O Nome de Deus para os negros “nagôs” de língua Yorubá. Olo – Senhor; Orun – céu; Olorum – Senhor do Céu. Dentro dessa cultura pode ser chamado também de Olodumaré – Senhor Supremo do Destino.

Oxalá: Principal divindade do panteão nagô – yorubá. O co – criador. Oxalá vem de Orixalá – O Orixá que usa branco. É a divindade da paz, da iluminação e da espiritualidade verdadeira. Na cosmogonia yorubá ele cria os homens e mulheres do barro, em sua fôrma divina. Mas a vida quem lhes dá é Olorum, com seu sopro vital. Oxalá é a força que se manifestava no mestre Jesus e ficou conhecida como Força Crística. Por isso na Umbanda adotamos o sincretismo de Oxalá com Jesus.   

Preto – velho: Forma plasmada de espíritos que normalmente atuam ligados a egrégoras de Umbanda. Utilizam essa forma como meio de homenagem aos antigos negros dessa terra, que aqui aportaram e trouxeram o culto aos Orixás. Além disso, essa forma plasmada simbólica é chave de acesso a egrégora/falange que o preto – velho pertence. Nem todos foram escravos ou negros em suas últimas encarnações.

Orun e Ayê: Na cosmogonia yorubá divide – se o mundo em Orun – céu, lugar onde reside os Orixás, plano espiritual e Ayê – o mundo material.  

 

 

Oferenda de Encruzilhada

Francisco era seu nome. Homem que conheceu desde muito jovem as dificuldades materiais da vida, e acostumado a trabalhar desde o nascer do sol até a noite chegar, agora se aposentava. Saudável e com muita energia, não demonstrava seus cinqüenta e oito anos. Embora de família humilde, recebeu a melhor educação possível transmitida pelo exemplo de seus pais. A única herança que não quis herdar dos progenitores foi à fé. Incrédulo, não seguia nenhuma religião e até zombava delas.

A ociosidade que a aposentadoria trouxe para seu Francisco, o deixava ansioso. Agora que já havia reformado a casa, o galpão, plantado a horta, os dias demoravam muito a passar. Relembrando o dito popular que “cabeça vazia é oficina do mal”, em pouco tempo Francisco sentiu vontade de começar a divertir-se já que até então só havia pensado em trabalho. Morando próximo à cidade, ao entardecer resolveu visitar uma casa de diversões que existia por lá. Entre bebidas, mulheres e prazeres, perdeu a noção de tempo e retornava cambaleante já de madrugada, quando ao chegar numa encruzilhada avistou uma luz fraca no chão. Chegando próximo percebeu que ali tinha um “despacho”, como chamavam aquilo por lá. Uma bandeja grande onde repousava uma ave morta, velas, charutos e uma garrafa de cachaça, além de outros materiais.

Aliado a sua falta de crença em qualquer coisa, estava agora a bebedeira e todas as energias condizentes ao lugar de onde viera. Com desdém e desaforando com palavrões, juntou a garrafa de bebida e os charutos e chutou o resto do material. Até chegar em casa bebeu quase tudo e fumou alguns charutos.

No outro dia contava para a esposa sobre o “achado” e debochava com sarcasmo. A bondosa mulher, cuja mãe em vida era médium benzedeira, respeitava todas as manifestações ligadas ao mundo espiritual, conforme ensinamentos que havia recebido e por isso chamou a atenção do marido, dizendo-lhe que, se não acreditava deveria pelo menos respeitar. “Não presta mexer com trabalho de encruza”, repetia ela preocupada.

Outras noites a cena se repetiu da mesma forma, até o dia em que ao chutar a oferenda, enxergou na sua frente um homem de capa negra, com um chicote trançado na mão. Sua perna paralisou no ar e em pânico saiu pulando numa perna só, caindo e levantando. Por uma boa distância ainda, ouvia a gargalhada daquele homem ressoando no ar.

No outro dia, sentia dor nas costas como se houvesse apanhado e só de lembrar a cena vivida na noite anterior, arrepiava de medo. Temia contar para a esposa, pois sabia que o condenaria novamente pela atitude. Esta, vendo o marido cabisbaixo e triste, perguntou se estava adoentado. Nada respondeu, pois sentia-se como se estivesse, inclusive apresentando febre. Seus sonhos passaram a ser povoados pelo homem de negro e sua gargalhada. Acordava aos gritos e suando muito. Várias noites se repetiram desta maneira, até que resolveu contar para a esposa o que havia acontecido. Ela o aconselhou a tomar umas benzeduras, convidando para ir até um terreiro na vila vizinha. Meio renitente, mas sentindo a necessidade, ele aceitou com um misto de medo e curiosidade.

Após a abertura dos trabalhos com os pontos cantados e orações, ele já se sentia mais tranqüilo. Em frente ao médium que servia de aparelho ao um Caboclo, suas pernas tremiam que mal conseguia parar em pé. Nos ouvidos agora ressoava novamente a gargalhada do homem de negro e seu corpo arrepiava sem parar. Teve vontade de sair correndo daquele lugar, mas suas pernas não o ajudavam. Auxiliado pela esposa e pelo cambono, sentou-se numa cadeira para poder ser atendido pelo caboclo.

-Ogum é que está de ronda…Ogum é que vem rondar… -cantava a corrente, enquanto a entidade limpava com uma espada de São Jorge, o seu corpo etérico impregnado pela energia captada na encruzilhada. Depois com a firmeza característica de sua linha, o caboclo ordenou que ele ficasse de pé e lhe contasse porque estava ali. Desajeitado, mas já mais tranqüilo, falou:

_ Acho que mexi com o que não devia. Andei chutando uns “despachos” na encruzilhada e me apavorei com um homem estranho, que acredito não ser deste mundo…

_ Tranqüilize que tudo o que é possível ver, ouvir e sentir é deste mundo sim. O senhor acha certo ou errado a sua atitude?

_ Ah, eu não sei… Só fazia aquilo por brincadeira…

_ E se alguém fosse até a sua casa, chegasse lá chutando os móveis e quebrando tudo, se apoderando de sua comida na hora da refeição, iria gostar?

_ Lógico que não!

_ Pois é meu senhor. Foi o que fez lá na encruzilhada e por várias vezes, não foi?

_ É, foi.

_ O que não nos pertence não pode ser por nós seqüestrado. Não importa se o que estava lá é certo ou errado diante de seu entendimento. Além do físico, aquilo tudo tinha uma duplicata etérica que pertencia a alguém no mundo espiritual, com um objetivo e endereço vibratório certo. Cabe aos homens incrédulos, no mínimo respeitar a crença e atitudes dos outros. Lá estava um trabalho de magia – a cor dela não importa – era magia! Elementos e elementares, além de entidades espirituais, lá estavam atuando, se abastecendo da energia animal e etílica e foram incomodados, desrespeitados. O que o senhor presenciou na figura do homem, nada mais foi que a atuação enérgica de seu Exu guardião lhe colocando no devido lugar, antes que a Lei tivesse que atuar mais duramente. De difícil entendimento com as coisas do espírito, não crendo em nada que não seja palpável, se fez necessário a atuação materializada. Como criança teimosa, precisou da repreensão para só então respeitar. Isso não significa que encruzilhada é lugar de Exu, pelo contrário. Os espíritos que lá buscam se energizar com as oferendas são os chamados quiumbas, espíritos que embora fora do corpo físico, necessitam ainda de energias materiais.

 - Exu… cruzes! Isso é coisa do capeta!

Era momento de esclarecer a verdadeira identidade deste guardião da luz tão mal falado. E assim foi feito.

Ao voltar para casa sentia tamanho bem estar, que naquela noite dormiu tranqüilamente depois de muitas noites de sobressalto, quando não, de insônia.

Suas visitas ao terreiro de Umbanda tornavam-se assíduas onde buscava sabedoria, força espiritual e conforto para sua alma. Ele tinha uma missão que se estendia além de aprender a ter fé. Era preciso cumpri-la, por isso em pouco tempo manifestava-se através dele, seu protetor Ogum de Ronda abrindo caminho para o Exu, que chegava gargalhando e de chicote na mão. Artefatos que usava no astral para auxiliar, acordando a todos quantos estivessem esbarrando nos limites da Lei.

Ao sentir sua presença, Francisco agradecia. Ele foi privilegiado em conhecer estes artefatos, graças a Deus.

História Contada por Vovó Benta – Leni W. Saviscki

Exu de Lei nas Palavras de Seu Pedra Negra

 



Abaixo, deixo um trecho do livro “Histórias do Povo de Umbanda”, psicografada por Edson Gomes. O trecho narrado é contado pelo Exu Serra Negra. Nele, Natan (Serra Negra), começa a aprender o que é ser um Exu de Lei. É instruído pelo Exu Pedra Negra. O diálogo acontece após uma série de acontecimentos onde, Natan, ainda não esclarecido, estava atuando como um kiumba:(Pág.134 e 135; Grifos nossos)

“_ Peste! _ Pedra Negra ergueu a voz _ Tu fez muita coisa ruim, e tá tendo chance de pagar e consertar. Eu já fiz muita coisa ruim, já paguei, já aprendi. Ele não é diferente. Tu não aprendeu nada com o sofrimento de ficar perdido? Tu não entendeu que só colheu aquilo que plantou até aqui? Se tu ainda não aprendeu nada disso ainda tem muito mais pela frente do que imagina.

_ Você também já foi assim?_ olhei para o meu próprio corpo deformado, enquanto perguntava.

_ Não! Eu aceitei logo de princípio. Nota: (aqui Exu Pedra Negra faz referência a aceitar auxílio após o desencarne, coisa que Natan não aceitou).     

_ Então você é um espírito elevado! _ afirmei.

_ Não. Eu aceitei, mas isso não pagou o que eu fiz em Terra, não devolveu as vidas que eu tirei.

Olhei com raiva para ele.

_ Não, peste. Não sou melhor que tu por ter aceito primeiro. Já disse, isso não justifica o que fiz. É por isso que hoje aprendo a compensar o que eu fiz “trabalhando” para a elevação espiritual dos outros, como você. Essa é minha função. Eu guardo uma parte do umbral, não permitido que os mais baixos, os menos esclarecidos e os sem luz interfiram na vida dos justos e merecedores. Eu, peste, sou um guardião.Antes das Trevas invadirem a Luz, precisam passar por uma divisão, uma divisão com a mesma força das Trevas, mas que trabalha em nome da Luz. Eu faço parte dessa divisão. Zelo pelo material e por sua proteção. Isso é o que me distingue em Exu-de-Lei de um quiumba. É isso que me faz ser mais forte que você, e é assim que eu cresço rumo à luz. Fica fácil aprender, depois que tu aceita.

_ Você não dá tombo?

_ Não, já disse! Não trabalho pro que é baixo. Se eu fizer alguma coisa, vai ser pra ensinar, não pra derrubar. Não sou quiumba.

_ Você é bem pago?

_ Sou.

_ O que lhe entregam?

Nada. O que eu preciso, o que tu precisa, não tem entrega que possa pagar: vem apenas pelo trabalho.  

_Então, tu não é bem pago! _ grunhi.

_Não quero ficar no buraco de onde acabei de te buscar. O que te ofereceram te tirou dele?

Fiquei calado. Senti-me pequeno, inútil.

Olhei para cima e vi planos espirituais, imitações de lugares na terra passando.

Nós já havíamos atravessado a camada mais baixa, onde apenas trevas e sombras se moviam, um lugar que chamam de “umbral”.

Entramos em uma penumbra, um lugar de caridade controlada, onde o ar sóbrio e calmo se espalhava. Ele me apontou um prédio alto, em estilo quase gótico, com altas torres e luzes enevoadas.

_Chegamos! Aqui você vai ficar para aprender, para se doutrinar e evoluir. Lá dentro é mais iluminado.

Fiquei olhando as janelas…seu padrão me recordava o Cabaret.

As sombras se alongando até se derreterem na parede oposta…, as velhas sombras das janelas do Cabaret. Assemelhava-se à familiaridade do Cabaret…” 

PS: Esse excelente livro conta a história de três espíritos, integrados as falanges de Veludo, Serra Negra e Maria Padilha. Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre Exu dentro da Lei de Umbanda, é um excelente livro. Acho interessante a maneira simples como Exu Pedra Negra explica o que é ser um Exu de Lei no trecho acima. Esse trecho retrata muito bem também, como os espíritos ligados a egrégora de Umbanda esclarecem os menos favorecidos, sem doutrina pesada, dogmas ou citações religiosas. Além da ênfase que se dá para o trabalho reconstrutor, ao invés do sofrimento descabido (muito naturais das doutrinas extremamente cristãs).

Fica a recomendação dos outros dois livros psicografados pelo autor: Mandinga e Rosário Pelourinho. Edson Gomes deveria ser mais conhecido no meio umbandista, seus livros são bem bacanas. A ele, e aos seus mentores espirituais, nossa homenagem…

Na Senda com o Guerreiro

guerreiros-de-aruanda

 

Viajo a uma velocidade espantosa no espaço. Parece que não mais sou eu que me movimento, mas sim o espaço “passa por mim”, quadro a quadro, e uma distância inexplicável e incontável é vencida em questões de segundos. Quando novamente consigo centrar – me, vejo que estou em uma casa humilde, um pouco escura, com uma lareira acesa e um velho homem sobre ela debruçada. Percebo que esse homem parece retirar algo da lareira. Esforço – me um pouco e vejo ser uma lâmina incandescente. Finalmente o homem percebe que eu estou próximo e me saúda com um singelo “oi”.

 

Diz, que estava me esperando, que ele me mostraria uma coisa, algo importante. Começa a martelar a lâmina tentando dar a ela um formato reto, firme, etc. Enquanto vai fazendo isso, começa a cantarolar uma canção. Finalmente termina, fundi a lâmina com um belo cabo dourado e uma bonita espada está formada. Ele me entrega a espada, perguntando – me:

_ Filho o que você tem em sua mão?

_Ora, uma espada _ respondo eu meio surpreendido por uma pergunta tão “boba”

_Certo, e para que serve uma espada?

_ Bem, uma espada normalmente é uma arma utilizada em batalhas para causar ferimentos nos inimigos…

_Ah sim, nos inimigos _ diz o velho pensativo…

_Sabe foi exatamente para isso que eu te trouxe, aqui. Sou um velho ferreiro e depois de fazer tantas armas, me tornei um mestre também no manejo delas. A espada é símbolo de batalha filho! Símbolo de força que corta todo o mal. O problema é achar o mal. Normalmente a gente procura fora, nos outros, quando em verdade, o mal está dentro da gente. Saímos distribuindo “espadadas” em todo mundo, mas esquecemos de olhar para dentro do coração. Lá pode morar o mais belo diamante ou o mais terrível demônio. Antes de usar essa espada, primeiro olhe o seu coração e veja se nele existe um diamante ou um demônio, só então a usará com sabedoria.

É, isso fazia sentido. Colocar a culpa em outros e distribuir “porrada” era fácil, difícil é lutar contra os monstros internos. 

Logo em seguida, o velho pegou um escudo muito bonito e brilhante, com uma bela pedra vermelha escarlate presa em seu centro. Colocou o escudo em minha mão e me perguntou:

_Filho pra que serve um escudo?

_Bem, o escudo a gente usa para nos defendermos do ataque dos inimigos… 

_Defender dos ataques dos inimigos… _ disse – me novamente pensativo…

_Meu filho, o escudo normalmente é uma arma muito resistente, pois precisa aguentar os impactos das armas inimigas. Mas você já percebeu como o lado interno do escudo é frágil? Tente defender algum ataque com o lado interno e logo o escudo se partirá! Assim também é em nossa vida. Dos ataques externos sempre poderemos nos proteger com um escudo. Mas, e os ataques internos? Esse nenhum escudo do mundo poderá nos defender, pois ele é forte em sua parte externa, mas frágil internamente…

Fiquei surpreso com a explicação do velho. Era inteligente e eu nunca tinha pensado nisso. Quem seria esse estranho velhinho que me passava esses conhecimentos? Não estava entendendo, não ainda…

_Vem filho vamos lá fora. Lá vem a última parte da nossa conversa…

Saímos e me vi em um belo campo. Nesse campo uma estrada reta e infinita abria – se até a linha do horizonte, perdendo – se da minha visão. Lá na frente um brilho enorme como um sol, ou uma estrela. Interessante, a frente o amplo e belo campo ia tornando – se feio, tenebroso e escuro, mas para minha surpresa, o caminho aberto continuava luminoso. Era como uma senda de luz, que trespassava a escuridão:

_Filho você é jovem e ainda terá que trilhar a sua própria senda. Eu sou um ancião que já trilhei muitas sendas e hoje ajudo aqueles que a estão trilhando. Assim faço por muito tempo e ainda assim farei por muito mais.  Agora preste atenção no que irei te dizer. Esse é o caminho reto da sua vida. Você deve segui – lo até o fim. Percebe que no fim uma bela estrela o aguarda. Mas entende também, que quando distancia – se da senda, é jogado em um campo, ou melhor, em um pântano escuro e tenebroso. Por isso, guia – se pelo seu coração e nunca perca o caminho reto da Lei.

E então algo muito diferente aconteceu, muito místico, algo inexplicável…

O velho em pura luz converteu – se, e quando vi o mais belo guerreiro estava a minha frente. Deve ser um pai Ogum, pensei! E realmente o era…

Primeiramente deu – me a espada, e disse que enquanto o meu coração brilhasse, a minha espada seria invencível pois a Justiça a guiaria. Disse – me ainda, que apenas a mão do amor pode utilizá – la com sabedoria…

O Escudo também foi me dado. Com ele me protegeria dos ataques externos, contrários a trilha da minha senda. Mas ele tinha um significado maior, e lembrava – me que internamente é onde mora os verdadeiros perigos e contra esses, o escudo não teria força alguma…

Por fim, o mais surprendente. O caminho luminoso a minha frente sumiu e transformou – se numa bela lança com uma ponta que brilhava como uma linda estrela. Essa lança entrou diretamente em meu peito e lá ficou alojada. Era o caminho reto da Lei. Era a senda de luz que eu teria que trilhar. Ela estava marcada em meu coração, e por ela eu viveria eternamente…

Sou jogado no espaço e faço o caminho de volta na mesma velocidade, novamente a sensação de que eu não me movimento, mas sim o espaço passa por mim em uma velocidade impressionante. Finalmente, acordo! Será que foi um sonho?

Não! Foi real. Choro de agradecimento. Sinto a oportunidade dada e agradeço. A Senda que me leva ao Criador está em meu coração. É um caminho de luz e amor. Por isso choro…

Obrigado luz! Obrigado meu pai Ogum. Obrigado meu pai Oxalá…

Por Fernando Sepe

 

A Filha de Olorum

 


E sua majestosa voz ecoou pelo alto, pelo embaixo, pela esquerda e a direita, pelo a frente e o atrás, pelo envolta. Por determinação do pai – mãe de Todos, uma nova religião nasceria sob solo brasileiro. Era sua filha mais nova, a Umbanda.

 

E um verdadeiro rebuliço começou no Orum, pois logo o mais respeitado dos Orixás se ergueu de seu Trono e disse que ele seria o responsável e sustentador maior da religião. Oxalá abençoava o nascer da mais nova filha de Olorum, e a assumia dos Seus Divinos Braços. Nela a espiritualidade e a fé estariam presentes, como aceleradora da evolução de todos. Não existiriam dogmas,  e apenas um grande fundamento: Amor e Caridade.

 

E logo começaram a chegar os Orixás, todos também abençoando e apadrinhando a nova filha de Olorum.  Ogum e Iansã, os mais emocionados de todos, diziam que protegeriam a nova religião com as armas da Lei.

 

E então a voz trovão de Xangô ecoou, pelos quatro cantos do Orum, dizendo que ele seria a Justiça a favor de todos. Sua palavra seria Lei, e os filhos de Umbanda nada temeriam, pois todos são filhos de Rei, o Rei Xangô.

Também apresentou a todos sua mais nova esposa, Egunitá a quente irmã mais nova de Iansã. Ela que era “fogo puro” encantou a todos, e disse que protegeria a Umbanda.

 

E assim a filha mais nova de Olorum ganhou seus dois padrinhos: a Lei Maior e a Justiça Divina.

 

Mas algo engraçado aconteceu. Muitos espíritos vindos de um dos muitos bairros do Orum, Aruanda, disseram que eles seriam os trabalhadores e a linha de frente da religião, além de assumirem a condução dos médiuns umbandistas.

 

Oxalá que é o senhor das formas, e pai da Umbanda, consentiu e determinou que por homenagem ao povo negro e indígena, todos assumissem a forma de Caboclos e Pretos – velhos. 

E logo chegou Oxossi de uma de suas muitas caçadas, e assumiu toda a linha de Caboclos, tornando – se o Rei dos Caçadores. Distribuiu um diadema que os caboclos trazem até hoje, o diadema ganho do Rei das Matas.

 

E o velho Obaluayê junto de Nanã, abençoou todos os espíritos anciões que se consagravam ao trabalho da linha de pretos – velhos. Concedeu a eles a sabedoria que só o passar do tempo pode conceder. E todos se transformaram em ótimos conselheiros e curadores, principalmente das chagas da alma.

 

E por falar em tempo, ele também estaria presente. Oiá – Tempo (xará de Iansã – Oiá), seria responsável pelas força do tempo dentro da nova religião. E como ela é muito observadora e vamos dizer,  bastante desconfiada, seria a guardiã da fé e dos processos da religiosidade. E “ai” de quem pisasse na bola da religiosidade. Lá estaria Oiá com seu olhar congelante…

 

Iemanjá que é uma  “mãezona” queria que todos espíritos que se manifestassem para a caridade pudessem ser aceitos no ritual, sabe como é,  “em coração de mãe sempre cabe mais um”. E assim ficou decidido, pois ninguém tem coragem de negar um pedido da encantadora Rainha do Mar. E a Umbanda acolheria a todos,  caso viessem para prestar a caridade. Surgia então, as muitas linhas de trabalho,  como baianos, marinheiros, boiadeiros e os muitas vezes renegados pelo próprio povo de origem, os ciganos…     


E de repente apareceu Oxum, perguntando que festa era aquela. Quando ficou sabendo que era o nascimento da mais nova filha de Olorum, começou a chorar e a abençoou com suas lágrimas que caíam de seus olhos como duas enormes cachoeiras. (ela é muito chorona, mas não gosta que a gente fale sobre isso…)

 

E de presente a ela, chamou Oxumaré, que transformou tudo em cores e disse que renovaria e embelezaria tudo com seu axé colorido.

E junto do seu arco – íris vieram os encantados da natureza, as crianças que seriam a alegria da Umbanda.

 

O “time” estava quase completo, quando da terra surgiu o amado Tata Omulu e Obá. Não muito sorridentes, para falar a verdade bem sérios e um pouco secos, disseram que também fariam parte da nova religião. Que queriam ver seus cultos renovados, e que seriam a força do elemento terra. Obá que depois de muitas desilusões, nada mais queria com Xangô, resolveu unir – se a Oxossi, e ajuda – lo a disseminar o conhecimento.

 

Omulu que é muito calado colocou – se do lado de Iemanjá, dizendo que a guardaria por todo o sempre. Na verdade até umas lágrimas foram vistas cair de seus olhos, negros como a noite. Ele é meio incompreendido, mas quem o conhece sabe que é o mais amoroso dos Orixás.

 

Todos estavam comemorando, quando não sabe – se direito porque, uma confusão começou, e ninguém mais sabia o que iria fazer. Oxalá que muitas vezes já tinha sido enganado por “ele”, não seria novamente. Logo disse:

 

_ Laroiê Exu! Você também é convidado a participar da nova religião. Será responsável pela esquerda de todos. Mas vai ter que seguir as Leis de Xangô, e será acompanhado de perto por seu querido irmão Ogum!

 

Uma gargalhada soou por todo Orum, e Exu apareceu. Junto dele a mais bela moça, Pombagira. Exu ficou feliz, disse que agora teria Pombagira para dividir seu trabalho, mas que não abriria mão de ser sempre o primeiro a ser firmado. Não porque ele era aparecido, mas sim porque era ele quem guardaria os templos e casas de Umbanda.

 

E muito esperto que era, disse:

 

_ Olha, eu vou supervisionar o trabalho junto com Pombagira. Mas vou deixar uns espíritos trabalhando com a minha força fazer o trabalho. Afinal o que o homem faz, o homem que desfaça. E também o meu irmão Oxossi é senhor da linha de caboclos, porque eu não posso ser senhor da Linha de Exu?

 

Bom, começaram umas discussões, mas acabou acertado que o Orixá Exu atuaria na Umbanda, a partir de sua linha de trabalho. Seria a linha que faria o trabalho pesado, além de serem os guardiões dos médiuns, e dos templos de Umbanda.


E assim todos os Orixás muito emocionados, deram as mãos e começaram a orar pelo sucesso da mais nova filha de Olorum.

E então o Pai e Mãe de Todos se manifestou:

 

“Meus amados filhos Orixás, a Vós eu consagro minha filha nova e dileta, a Umbanda. Que ela transforme – se em uma religião semeadora de luz, alegria e compaixão. Que seja espiritualista e universalista, que esteja aberta a todos de bom coração”.

“E que em sua pedra fundamental esteja escrito o seu único dogma: Amor e Caridade!”

 

E de Si Sete intensas irradiações partiram, e envolveram sua filha querida. Todos emocionaram – se e agradeceram a Olorum, por essa benção a humanidade.

 

 Quase cem anos passaram, e a Umbanda cresceu um bocado.

 

Transformou – se em uma linda jovem, amorosa e alegre. Amparada por seu Pai Oxalá, e seus padrinhos, a Lei Maior e a Justiça Divina, ela vai vencendo todos os obstáculos.

 

Os seus trabalhadores conquistaram o coração das pessoas. Todos correm para escutar a palavra de sabedoria do preto – velho, ou a conversa pura e alegre da criança.

 

Os caboclos transformaram – se na linha de frente da Umbanda, trazendo as qualidades dos nossos amados pais e mães Orixás. Onde existe um Pena Branca, lá está a paz e serenidade de Oxalá. Onde trabalha um Sete Espadas, está os olhos da Lei.

 

Exu e Pombagira se fizeram presentes tornando – se sinônimos de proteção e cumprimento da Lei, seja na seriedade do Tranca – Ruas, no olhar penetrante do seu Capa Preta, ou na força da Rainha Maria Padilha.

 

Todos os espíritos podem se manifestar para a caridade, como um dia pediu a “mãezona” Iemanjá, surgindo assim a alegria dos muitos “Zés” que trabalham na Umbanda.

 

E principalmente a Umbanda tornou – se sinônimo de amor e caridade, de luz e evolução espiritual.

 

Esse texto é apenas uma fábula, uma lenda ou um Itan, que presta também sua homenagem a filha mais nova de Olorum. E um pedido para que enfim as pessoas entendam, que existe algo maior que a “minha” ou “a sua” Umbanda. Simplesmente existe A UMBANDA, filha querida de Olorum, que encanta a todos os Orixás, e enche os olhos do velhinho e amoroso Oxalá de lágrimas de felicidade e amor…

 

(Sepe, em homenagem a Umbanda, essa linda religião universalista, doada a todos nós pelos amados Pais e Mães Orixás).